Cidade de Fez pela manhã, após movimentada noite de Ramadã

Você vai mesmo viajar para um país islâmico durante o Ramadã?

Quando decidi viajar para o Marrocos durante o Ramadã, alguns amigos me encheram de alertas e perguntaram: Mas por que você vai justamente nessa época?

E por não saber muito bem como responder essa pergunta, minha resposta foi o elaborado e complexo: Porque sim.

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A cidade de Fez (Foto: Vinicyus Vieira, Viagem’Grafia)

Confesso que meus conhecimentos sobre o Ramadã eram bem limitados e foi praticamente já dentro do país que comecei a ganhar melhor noção do significado desse período sagrado para os muçulmanos, que acontece todos os anos e dura 29 ou 30 dias. Não vou me aprofundar no aspecto histórico ou religioso, mas quero compartilhar algumas coisas que aprendi, vendo de perto esses dias tão importantes do islamismo.

Como o Ramadã muda a rotina dos muçulmanos 

Ao chegar no Marrocos e perguntar para as pessoas sobre o Ramadã, a minha primeira impressão foi considerá-lo um período com regras duras e sacrifícios muito radicais. Afinal, entre o nascer e o pôr do sol ninguém come nada, ninguém bebe nada, fumantes deixam de fumar e qualquer tipo de prazer carnal passa a ser rejeitado.

Com tantas restrições nos hábitos, é claro que a rotina social muda e a vida gira em outro ritmo. Uma prova disso é a troca do dia pela noite – já que as pessoas só comem (fazem o desjejum) depois que o sol desaparece na linha do horizonte.

Assim, muitos estabelecimentos só abrem as portas cerca de duas horas antes do pôr do sol e fecham as portas quando começa a amanhecer. Para quem gosta de vida noturna, isso é incrível. Cafés lotados, congestionamento de carros e crianças brincando nas ruas durante a madrugada é algo curioso de se ver.

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Uma manhã silenciosa em Fez, depois de uma noite movimentada de Ramadã. (Foto: Vinicyus Vieira, Viagem’Grafia)

Mas mesmo com o ritmo urbano girando em torno da noite, tente imaginar o que é passar o dia sem beber uma gota d’água numa temperatura de 47 graus. Realmente, não é fácil.

Tolerância e respeito

E como não sou muçulmano, comecei a me perguntar: Como é que vou fazer para comer ou beber água durante o dia, sem fazer todo mundo passar vontade? Vou ter que jejuar também? Vou ter que beber água escondido?

E já no primeiro dia vi que não só poderia beber e comer normalmente, como os próprios marroquinos não se cansavam de me oferecer água e comida.

Quando perguntei a um homem se ele não passaria vontade, ao me ver comendo e bebendo na frente dele, a resposta foi: Eu fico em jejum porque quero. Mas você não é muçulmano, então precisa comer!

E aí eu comecei a perceber a tolerância e o respeito vindo de um lado frequentemente julgado como mais intolerante.

Além dos viajantes, mulheres grávidas e pessoas doentes são orientadas a não participarem do jejum, por motivos óbvios.

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Hora do desjejum. (Foto: Vinicyus Vieira, Viagem’Grafia)

Outro homem me disse que o jejum é importante para se colocar um pouco no lugar de quem não tem o que comer e que além disso, todos aqueles hábitos do Ramadã, são formas de exercitar o autocontrole.

A partir desse momento, minha ideia de que tudo aquilo era radical demais, mudou e comecei a ver beleza naqueles hábitos. Na verdade, vi tanto significado que resolvi até jejuar no dia seguinte. Mas pouco antes das 13 horas, meu autocontrole foi para o espaço e bebi uma garrafa de água como se tivesse terminado uma maratona. O que me fez dar ainda mais valor ao autocontrole … deles, claro.

Esse autocontrole é tão grande que até na hora do desjejum, as pessoas comem e bebem com a tranquilidade de quem já está de estômago cheio – mesmo com fome, a comida não era devorada em segundos, como eu imaginava que seria.

Uma época especial 

Mas de certa forma, o mês do Ramadã se parece um pouco (repito: um pouco) com o nosso mês de dezembro. Isso porque em dezembro, por conta do Natal e da virada de ano (além das reuniões familiares em torno de mesas com comida) muitas pessoas ficam mais reflexivas e um pouco mais predispostas a pensamentos e ações solidárias. Com o Ramadã acontece algo parecido e o mês ganha uma atmosfera diferente.

Para se ter uma ideia, muitas pessoas me convidaram para participar do momento do desjejum junto de suas famílias sem ao menos me conhecerem. Às vezes, a quantidade de convites num dia era tão grande, que eu infelizmente tinha que recusar alguns porque já tinha me comprometido a estar no desjejum na casa outra família que tinha conhecido poucos minutos antes.

Incrível, não?

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Um casal simpático que me convidou para comer ao lado da família deles na hora do desjejum (Foto: Viagem’Grafia)

E se hoje alguém me perguntar por que tenho vontade de visitar o Marrocos justamente no período do Ramadã, em vez de responder com o “porque sim” eu responderia com o também elaborado e complexo: Por que não?

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