O ladrão da Fontana di Trevi

Todos os dias cerca de 3 mil euros são jogados dentro da Fontana di Trevi por turistas que visitam Roma. É uma tradição antiga que diz que quem joga uma moeda dentro da fonte, retornará à cidade em breve. E por causa dessa tradição, uma história incrível e tragicômica se formou em torno da fonte e das suas moedas. Vou começar com a parte trágica …

Visão frontal da Fontana di Trevi
Fontana di Trevi / Foto: Viagem’Grafia

A parte trágica da história

Em 2009, vi um homem dentro da Fontana di Trevi, gritando com uma multidão de turistas que respondia com gargalhadas. Enquanto o homem não saia de lá, os turistas foram impedidos de se aproximar da fonte para jogarem suas moedas e se espremiam atrás de um cordão de isolamento feito pela polícia. Veja a foto:

Homem com as estátuas da Fontana di Trevi
Foto: Viagem’Grafia

Mas a multidão se divertia com a agitação da polícia e com cada gesto e esbravejada do homem que escolheu ficar bem no centro da Fontana di Trevi, embaixo da estátua do titã Oceano.

Realmente estava tudo muito engraçado, até que todo mundo engoliu a própria risada depois que o homem começou a cortar a própria barriga com uma lâmina. E com o silêncio das pessoas, entendi que ele gritava pelo direito de continuar com seu trabalho. Dizia que estava cada vez mais difícil exercer a própria profissão.

Só que com todos aqueles cortes e sangue na barriga, ninguém sabia até onde ele chegaria para expressar a revolta. E claro, isso assustou muita gente.

Mas se ver alguém se cortando em público já era uma cena triste, mais triste ainda foi ver a transformação do comportamento dos turistas. Depois de 10 minutos, muitos dos que estavam ali passaram de assustados a impacientes e pediam um desfecho mais rápido para tudo aquilo.

E fui embora assim que comecei a ouvir vários turistas gritando: Quero jogar minhas moedas, se mate logo!

Homem dentro da Fontana di Trevi
Foto: Liese Rammi

A parte cômica da história 

Levou cerca de quatro anos, para eu descobrir (meio sem querer) o que realmente aconteceu na Fontana di Trevi naquele dia. O homem não se matou. A polícia entrou na Fontana e o tirou de lá na marra. Mas aquilo tudo era só um pequeno capítulo de uma história que se arrastava por muito tempo e que, por incrível que pareça, chega a ser cômica.

O homem que protestou dentro da Fontana di Trevi era o romano Roberto Cercelletta, mais conhecido como D’Artagnan.

Um homem que seis vezes por semana, durante as madrugadas, ia até a Fontana di Trevi para encher os próprios bolsos com as moedas que os turistas haviam jogado durante o dia. O impressionante é que a polícia só o pegou com a mão na massa depois de 34 anos! Sem ser atrapalhado, ele se sustentou coletando moedas entre 1968 e 2002!

Mas como as moedas eram jogadas e “abandonadas” dentro da fonte, ele não podia ser considerado um ladrão. Afinal, ele pegava moedas que não tinham mais dono e por isso ele não podia ser preso.

Então, mesmo depois de ser descoberto em 2002, D’Artagnan continuou livre para continuar com seu trabalho durante as madrugadas.

Parte cômica  2

Policial italiano em Roma
Policial observando a Fontana di Trevi / Foto: Viagem’Grafia

Embora não pudesse ser preso por furto ou roubo, o “trabalho” de D’Artagnan se tornou muito mais complicado de ser executado a partir de 2002 e por um motivo hilário.

De acordo com uma lei italiana (de 1994) pegar moedas da Fontana não era crime, mas entrar nela era (e ainda é) uma infração grave e com multas bem pesadas – já que se trata de um lugar com grande importância histórica e que deve ser preservado.

Só que pegar as moedinhas sem precisar entrar na Fontana nunca tinha sido problema para D’Artagnan. Com uma varinha, uma linha e um ímã, ele simplesmente pescava as moedinhas da fonte sem precisar entrar na água. O problema foi que em 2002, o euro entrou em vigor na Europa e as novas moedas já não grudavam mais no ímã da varinha dele.

D’Artagnan foi à loucura. E como os dias de má pescaria aumentaram, ele decidiu entrar na fonte para protestar e mostrar que estavam prejudicando seu trabalho e sua carreira. E para deixar tudo ainda mais cômico, D’Artagnan não tinha residência fixa, nem emprego e multá-lo por entrar na Fontana, era impossível. Ele não tinha condições de pagar mesmo!

Essa confusão só terminou em 2013 (no final do texto está o motivo)

Muitos turistas em volta da Fontana di Trevi
Turistas em volta da Fontana / Foto: Viagem’Grafia

Por que D’Artagnan? 

Uma das versões para a origem do apelido diz que o próprio “ladrão” escolheu ser chamado assim. Isso porque ele dividia as moedas que coletava com outros desempregados e moradores de rua. O detalhe, é que isso não tem nada a ver com o quarto mosqueteiro D’Artagnan mas, sim, com Robin Hood. Como ele parecia mesmo ser meio maluco, eu não duvido que ele tenha feito essa confusão.

A segunda versão diz que ele recebeu esse apelido de colegas moradores de rua que ao verem Roberto Cercelletta (ainda com cabelos compridos e barba negra no início da carreira), ficaram impressionados com a agilidade dele para pegar moedas durante as madrugadas. Por conta da aparência física e da velocidade, ele realmente se parecia com o mosqueteiro D’Artagnan – só que em vez de segurar uma espada, segurava uma varinha de pescar improvisada.

Para onde vão as moedas jogadas na Fontana di Trevi?

 

Moedas dentro da Fontana di Trevi
As moedas dentro da água da Fontana / Foto: Viagem’Grafia

Todas as manhãs as moedas são recolhidas, separadas do lixo e enviadas para uma triagem – onde são contadas e separadas por tipo de moeda e valores. Quando esse processo termina, as moedas são colocadas em sacos e vão para a instituição de caridade Caritas , que realiza pelo mundo inteiro, uma série de projetos voltados para pessoas em vulnerabilidade social.

Então, mesmo que você não seja supersticioso para acreditar na tradição da Fontana, ao jogar uma moeda lá, você certamente estará ajudando pessoas em necessidade … até mesmo os D’Artagnans.

Estátua da Fontana di Trevi
O cavalo que representa o mar quando está calmo e o tritão anunciando a chegada de Oceano / Foto: Viagem’Grafia

Informação extra

  • D’Artagnan faleceu em 2013. Durante o cortejo seu caixão passou pela Fontana di Trevi e isso foi motivo de polêmica na cidade.
  • Desde outubro de 2016, pegar as moedas jogadas na Fontana di Trevi passou a ser considerado uma infração. Agora, elas pertencem à cidade de Roma antes de serem doadas.
  • Em 2016, foram recolhidos da fonte mais de 1 milhão de euros.
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