O fim dos mistérios da Ilha de Páscoa

A Ilha de Páscoa além de ser o lugar habitado mais isolado do planeta, é cercada por muitas perguntas que dão um ar de mistério a ela. Mas muitos desses mistérios já foram solucionados e as respostas abrem importantes temas de discussão para todos nós. Leia e entenda o porquê.

Características de Páscoa 

Quando os primeiros navegadores europeus encontraram a ilha no meio do Oceano Pacífico, praticamente sem vegetação e com poucas fontes de água potável, ficaram espantados não só por ver pessoas vivendo ali como também em ver centenas de estátuas (moais) e plataformas (ahus) de pedra por lá.

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Os moais encontrados na ilha variam de 4,5m a 20m de altura e pesam entre 10 e 270 toneladas. Foto: pixabay

A população de pequenos agricultores encontrada pelos europeus além de subnutrida parecia pequena demais para fazer tudo aquilo. Tantas estátuas pesadas exigiam muita gente trabalhando e obviamente, muito alimento para nutrir tantos trabalhadores.

Mas a ilha mal tinha comida. Os únicos animais que os europeus encontraram lá, maiores que insetos, foram algumas galinhas e ratos. Sem falar que  o mar em torno da ilha por ser profundo demais, dificulta a pesca com linha e rede. Ao contrário de diversas ilhas do Pacífico, Páscoa possui poucos peixes nos atóis de coral e também nas águas próximas ao seu redor.

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A maioria dos moais da ilha dão as costas para o mar. Foto: Rafael Incao

As perguntas que ficaram sem respostas por quase 3 séculos 

Por isso, os habitantes da Ilha de Páscoa, precisariam ir mar adentro para pescar. Mas como fazer canoas e barcos se não haviam árvores na ilha?

Além disso, como podiam transportar e erguer estátuas tão pesadas por toda a ilha, sem árvores para fornecer cordas e madeira?

O enigma é tão grande que até hoje muita gente acredita que seres extraterrestres têm participação nessa história.

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O céu da Ilha de Páscoa. Foto: wikimedia

Mas afinal, como aquelas pessoas encontraram e chegaram numa ilha tão pequena que fica cerca de 2ooo km distante do pedaço de terra mais próximo?

Observando a direção do voo de aves marinhas, os polinésios conseguiam prever a existência de ilhas muito antes de poder enxergá-las. Indicando o caminho, as aves foram as parceiras dos polinésios na ocupação de milhares de ilhas no Pacífico.

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Alguns moais foram erguidos com uma espécie de cocar na cabeça (pukaos), feitos com cilindros de pedra com até 12 toneladas. Foto: wikimedia

Depois de se estabelecerem na ilha, a população polinésia cresceu e chegou a ter, aproximadamente, 15 mil habitantes. Mas a ilha que os polinésios encontraram quando chegaram por volta de 900 d.C. era muito diferente da que foi encontrada pelos europeus cerca de 800 anos depois.

O fim dos mistérios

Quando os polinésios chegaram na ilha pela primeira vez, encontraram uma densa floresta subtropical. E isso já é meio caminho andado para esclarecer boa parte dos mistérios da Ilha.

Mas por que e como essa floresta desapareceu?

A ilha era dividida em 12 territórios, cada um deles ocupado por um grupo diferente e embora cada um dos territórios tivesse seu próprio líder, existia também um chefe supremo que integrava e regulava todos os territórios de Páscoa.

Por isso, era necessária uma estrutura política muito bem definida, para existir um equilíbrio no acesso e no compartilhamento dos recursos da ilha – já que cada um desses territórios possuía recursos e vantagens diferentes dos demais.

Como as estátuas eram todas construídas em um canto da ilha chamado Rano Raraku, imagine que depois de prontas elas tinham que ser transportadas até a “casa” do grupo que a fez, passando por estradas que cruzavam territórios de outros clãs.

Era uma forma de esfregar na cara dos vizinhos a incrível estátua que tinham acabado de fazer. Uma competição pacífica mas também uma forma de ostentação. Em outras palavras, a construção dos moais foi ganhando dimensões cada vez maiores por conta dessa “disputa entre vizinhos”.

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Grandes espaços de área desmatada. Foto: Nano Anderson. Licença CC BY

Consequências

Quanto maiores os moais e ahus, mais cordas e mais troncos de árvores eram necessários para realizar esse transporte. E em cerca de 500 anos, todas as árvores da ilha foram derrubadas, tornando o caso da Ilha de Páscoa um dos desmatamentos mais extremos que já existiu.

Sem árvores na ilha uma reação em cadeia trágica começou:

  • Os pássaros da ilha sumiram, os animais nativos da ilha foram extintos e, como já disse antes, só sobraram as galinhas e os ratos.
  • Mais exposto ao vento e à chuva, o solo perdeu nutrientes devido a erosão, o que dificultou novas plantações e reduziu as colheitas.
  • Sem madeira para fazer canoas, pescar em áreas mais ricas em peixes, tornou-se impossível.
  • A ilha já não dava condições de alimentar sua população e o alastramento da fome acirrou a rivalidade entre os clãs.
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A erosão do solo também soterrou muitos ahus e moais pela ilha. Foto:David Berkowitz Licença CC BY

Provavelmente os líderes de Páscoa, tentando manter suas posições, prometeram tempos melhores alegando serem pessoas mais próximas dos deuses. Como as promessas não se concretizavam, foram tirados do poder e mortos depois de revoltas populares.

A fé nos líderes e nos valores religiosos desmoronou, a ilha entrou em guerra civil e as estátuas começaram a ser destruídas por eles mesmos. A população da ilha caiu para algumas centenas de pessoas, sem que ao menos seus habitantes pudessem fugir dali, já que não podiam mais fazer barcos.

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A ilha mais solitária do Pacífíco. Foto: Fernando Silva. Licença: CC BY

Páscoa entrou em colapso.

Alerta

Olhando a história de Páscoa, é fácil encontrar paralelos com nosso mundo atual. A ilha parece uma miniatura do planeta e o caso dela nos mostra como um impacto ambiental pode levar uma sociedade organizada a uma situação de colapso total.

Páscoa não é um exemplo isolado, existem muitos outros casos de final parecido.

A nossa vantagem é que podemos olhar para o passado e constatar que todos os lugares têm seus limites e fragilidades. E compreender essa trágica reação em cadeia vivenciada por outras sociedades é um grande estímulo para fazer diferente. Já os pascoenses não tiveram essa chance de analisar outros exemplos.

Mas estamos fazendo diferente?

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Caso você tenha interesse em ir mais a fundo na história da Ilha de Páscoa, recomendo estes livros aqui:

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