Martin Strel – o viajante mais incrível do mundo

Entre todas as histórias de viajantes que já ouvi, a que vou compartilhar dessa vez é tão espetacular que fez o protagonista dela entrar 5 vezes no Guinness Book.

É a história de Martin Strel, um professor de violão, conhecido por alguns como “homem-peixe”, por outros como “o homem mais doido do mundo”, mas que eu prefiro chamar de: “o último super-herói do planeta”. Um herói que viaja de um jeito quase inacreditável e que gentilmente topou bater um papo com o Viagem’Grafia.

Bom, vamos lá.

Strel, nasceu na Eslovênia, mas realizou uma das maiores façanhas humanas aqui no Brasil, em 2007.

É curioso que ele seja tão desconhecido por aqui, mesmo tendo feito algo que, na minha opinião, é ainda maior que a façanha dos primeiros homens que chegaram ao topo do Monte Everest ou do primeiro homem que pisou no Polo Sul. Isso porque milhares de pessoas já repetiram essas façanhas. Já o que Martin Strel fez no Brasil, nunca foi e dificilmente será repetido por alguém.

Foto: Strel-Swimming.com

O feito no Brasil

Strel viajou pela Amazônia nadando o rio Amazonas de ponta a ponta – indo de Atalaya no Peru até Belém do Pará! A favor da correnteza, ele percorreu cerca de 90 km por dia – o que se fosse em água parada seria equivalente a 30 km/dia.

Mas o que torna esse feito ainda mais inacreditável é que (leia devagar, ok) ele nadou nesse ritmo por 66 dias seguidos, aos 55 anos, acima do peso (com mais de 100 quilos) e bebendo quase duas garrafas de vinho por dia! 

Foram 5268 quilômetros que entraram para a história como o mais longo percurso nadado por alguém.

Martin Strel é um nadador-viajante que foge dos padrões de corpo atlético de tal forma que muitos cientistas quebram a cabeça para entender como o corpo dele funciona. Ele não tem medalhas olímpicas, mas talvez seja o maior nadador de todos os tempos e é, com certeza, um dos grandes viajantes e exploradores desse mundo.

Foto: Strel-Swimming.com

Mas quando perguntei a ele como consegue nadar tanto, a resposta foi:

“Existem muitos atletas mais em forma do que eu, mas nadar um rio como o Amazonas exige outro tipo de condição. O maior desafio não é físico. Foi minha mente que me fez pular na água, sem medo dos animais. E embora incidentes com piranhas e uma infecção de larvas na cabeça tenham acontecido comigo, eu não tinha medo. Eu precisei me considerar parte da floresta e não um estranho nela”

Seja sincero, você teria coragem de nadar dia e noite no mesmo ambiente de uma infinidade de parasitas microscópicos, piranhas, cobras, jacarés, peixes elétricos que podem matar e outros animais como o candiru – um peixe minúsculo que entra no corpo humano por qualquer orifício (nariz, pênis, ouvido, boca) e fica dentro do organismo se alimentando de sangue?

Bom, eu não.

Mas curiosamente não foram os animais do rio que castigaram Strel, mas o sol.

Com menos de dez dias de viagem, o rosto dele já estava com queimaduras de 2º grau e seria impossível continuar a jornada se não fossem improvisadas algumas máscaras de pano para proteger seu rosto.

Foto: Strel-Swimming.com

E com esse visual, Strel seguiu pelo rio Amazonas como se fosse um herói mascarado.

                     

Fotos: Strel-Swimming.com

Mas antes de nadar o Amazonas, Strel já tinha uma lista impressionante de feitos em outros lugares do mundo. Claro que o Amazonas foi a sua maior jornada, mas dê uma olhada no que ele já tinha feito antes de nadar pela maior floresta do mundo.

Outras grandes viagens de Martin Strel


África-Europa

Foi em 1997 que Strel começou a se tornar um nadador-viajante, quando se tornou a primeira e até hoje a única pessoa a ter viajado da África para a Europa a nado, enfrentando ventos absurdos entre a Tunísia e a ilha italiana de Pantelleria.

Foto: Strel-Swimming.com

Rio Danúbio

No ano 2000, Strel viajou pelo segundo maior rio da Europa e em 58 dias, foi da Alemanha até a costa da Romênia nadando pelo rio Danúbio. Strel nos disse que foi nesta viagem que teve um estalo mental dentro d’água que o fez descobrir “o jeito” de nadar – dando braçadas e pernadas quase em modo automático, sem sentir dores e conseguindo até mesmo tirar breves cochilos enquanto nadava!

Nessa viagem ele chegou a ficar mais de 84 horas nadando sem parar! Outro recorde para o Guinness Book e que faz todos se perguntarem: Como ele faz isso?

Rio Mississipi

Em 2002, foi a vez de encarar o rio Mississipi, cruzando os EUA de norte a sul, indo de Minessota até o golfo do México depois de 68 dias. Algo que até então jamais havia sido feito.

Nessa viagem foi atingido por um raio durante uma tempestade.

Rio Paraná

Em 2003, nadou o rio Paraná em 24 dias – indo de Foz do Iguaçu até Buenos Aires.

Rio Yangtze

Em 2004, atravessou o Yangtze, o maior rio da China e terceiro maior do mundo. O Yangtzé até então aparecia na lista dos 10 rios mais poluídos do mundo junto com o Tietê. Imagine o que é nadar num rio com uma poluição desse nível? Lá, ele nadou em dejetos químicos e ao lado de animais em decomposição. A poluição da água era tão alta que todas as noites uma equipe médica precisava fazer uma limpeza do sangue de Strel  para que ele tivesse condições de continuar a jornada no dia seguinte. Foram 4003 quilômetros pelo rio chinês, em 59 dias.

Além da poluição, o início do Yangtze tem corredeiras que são extremamente perigosas para a prática do rafting. E se há risco para fazer rafting, pense como deve ser entrar ali sem um bote e ter que desviar das pedras com a força dos braços e pernas. Martin quase morreu lá.

 

              

Os 5 recordes de Martin Strel. Fonte: Strel-Swimming.com

 

Aqui vai um pouco do que ele nos contou:


Em determinado momento da travessia do Amazonas, parece que você não queria mais voltar para o barco durante a noite e queria ficar o máximo possível dentro da água. Por que você se sente tão bem dentro da água? Como isso começou?

Martin Strel: Durante a infância e adolescência apanhei muito do meu pai. E numa das noites que ele veio me bater, eu fugi e pulei num rio gelado da minha cidade (Mokronog). Com ele me seguindo pela margem, eu nadei quilômetros até que ele desistisse. E foi a partir daí que comecei a sentir que o rio era um lugar seguro para mim. Dentro d’água passei a me sentir protegido.

E hoje, qual é sua grande motivação? Por que você faz isso? 

Precisamos de três coisas na vida: Amigos, paz e água limpa. E além de me sentir bem dentro da água, nado para estimular reflexão sobre a forma como estamos tratando nossas águas. Bom, não só gerar reflexão e uma maior consciência, mas também ação.

Você já tem planos para uma nova viagem dessas? O que seria mais desafiador que nadar o Amazonas?

Em todas essas viagens, sempre fui acompanhado por um barco de apoio com meu filho, uma médica e um navegador. Mas minha próxima viagem será maior e vou com uma equipe de cientistas junto comigo. Quero dar uma volta ao mundo nadando pelos rios e costas de mais de 110 países. Um grupo grande de cientistas irá comigo dessa vez, para fazer análises e estudos das águas de todos esses lugares.

O Brasil está na sua rota?

Sim, mas não vou para o sul do país dessa vez. Vou nadar pela costa norte da América do Sul e ir até Fortaleza, mas a data ainda não está definida. 

Foto: Strel-Swimming.com

Como as pessoas das cidades por onde você passa costumam te receber? Você costuma ter problemas com políticos ou outras pessoas que não querem que você mostre a poluição de alguns rios? 

Quando nado em lugares poluídos, as pessoas locais (incluindo políticos) costumam se sensibilizar ao me ver pular em águas que elas nunca entrariam. É justamente pelo fato de que todos precisamos de água da mesma forma, que ninguém me enxerga como uma ameaça, mas como um parceiro.

Strel se tornou um embaixador que luta contra a poluição das águas ao redor do mundo e, além de estar no Guinness Book, também tem honrarias da Onu e hoje recebe apoio de atores como Leonardo DiCaprio, Matt Damon e Robert Redford.

Foto: Strel-Swimming.com

Conclusão

Acostumado a ter sempre acesso a água limpa para beber, eu quase entrei em parafuso quando tive uma experiência de semanas, em que o acesso direto a água potável era quase um luxo (uma história para outro texto). Mas com certeza, foi uma experiência que me fez dar ainda mais valor para a história de Martin Strel.

Mas além da causa, a história dele carrega a essência do que é perseverança, confiança, coragem, controle mental e vontade. Prestar atenção no que ele fez e faz, ensina muito quem está com receio de entrar em novas águas – seja qual for a definição que você queira dar para “novas águas”.

Aprendi bastante com esse cara e espero que a história dele também lhe seja útil de alguma forma, seja você um(a) aventureiro(a) ou não.

Foto: Strel-Swimming.com

 

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Aqui vão alguns links

The big river man (filme em inglês)
Water.org (Ong que tem Matt Damon como cofundador e que trabalha para que todos tenham acesso a água limpa)
The man who swam the Amazon (livro de Matt Mohlke, navegador que esteve com Martin na Amazônia)

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