A triste história da Libéria

Foi o primeiro país africano a se tornar uma república, o primeiro do continente a ter uma mulher como chefe de Estado e por muito tempo foi o único país da África com um hotel 5 estrelas. Mas mesmo sendo pioneira em tantos assuntos, a Libéria está há anos entre os 5 países mais pobres do mundo. Por quê?

Liberia no mundo / Fonte: amcharts.com
Liberia no mundo / Fonte: amcharts.com

Reconheço que mergulhar no passado da Libéria não é algo muito convidativo – ainda mais se você esperar uma viagem no estilo sombra e água fresca. Por outro lado, se o que você quer é mudar sua percepção da vida e da sua realidade, olhar para o que acontece e o que aconteceu com a Libéria é algo totalmente recomendável – mesmo que a história desse país se pareça mais com uma pesada história de terror.

Colonização

Pode soar estranho, mas a Libéria foi colonizada por negros vindos de fora da África.

Isso porque depois que a escravidão foi abolida nos EUA, ex-escravos e seus descendentes foram literalmente chutados para dentro de navios com destino à África. Nesse retorno, obviamente que não foram todos deixados nos mesmos lugares que haviam sido capturados, mas desembarcados num mesmo ponto da África, como se fossem um produto sem mais serventia.

Tirando a crueldade desse processo de devolução, ao menos eram livres e a liberdade sentida foi a inspiração para dar nome ao país – Libéria. A bandeira estadunidense foi o modelo para criar a própria e até mesmo o nome da capital, Monróvia, foi uma homenagem ao “generoso” presidente dos EUA, James Monroe.

Bandeira da Libéria
Bandeira da Libéria que foi inspirada na bandeira dos EUA.

Só que os ex-escravos, assim que botaram os pés em continente africano passaram de oprimidos a opressores. Escravizaram os que estavam ali, concentraram privilégios, se organizaram politicamente, formaram e governaram a Libéria por quase 150 anos.

Saindo de uma ditadura para as guerra civis

Até que depois de tanto tempo nas mãos de um pequeno grupo, as crises mundiais nos anos 70 e 80 atingiram a Libéria em cheio. A falta de recursos do país descambou na fome local e trouxe junto a ira de grupos armados que tentavam banir a ditadura existente para implementar a própria.

E em 1990, um dos grupos rebeldes conseguiu o que queria.

O presidente-ditador do país, Samuel K. Doe foi capturado, torturado, assassinado e comido (sim, comido) pelos novos ditadores … e isso foi só o começo dos incontáveis casos assustadores que se seguiram nas guerras civis que o país entrou e que duraram quase 15 anos.

História de Terror

A Libéria tornou-se um ambiente sem lei, onde ser mais assustador era a receita que cada um dos grupos rebeldes usava para alcançar e se manter no poder. Estupros e canibalismo se tornaram rotineiros. Soldados arrancavam e comiam corações de crianças. Cadáveres amontoados nas ruas eram devorados por pessoas famintas durante as madrugadas. Incontáveis mulheres grávidas foram mortas em apostas de soldados curiosos para saber se dentro da barriga havia um menino ou uma menina.

Monrovia - West Point / Foto: Mark Fischer. Licença: CC BY
Favela de West Point em Monróvia / Foto: Mark Fischer. Licença: CC BY

E ficou pior

Como se já não bastasse o caos em que o país estava …

Narcotraficantes dos cartéis colombianos e mexicanos, começaram a fazer negócios em alto mar, não muito longe da costa da Libéria, com traficantes de pedras preciosas vindos da Nigéria e de países mais ao sul do continente africano. Perceberam que drogas caras como heroína e cocaína tinham a possibilidade de emplacar, com preços mais acessíveis, no caos que a Libéria se encontrava. E não demorou muito para que o país ficasse cheio de crianças viciadas em drogas pesadas.

E como pano de fundo desse cenário assustador … Malária. Ebola. Aids. Cólera.

De 1990 a 2003 a Libéria foi o inferno na Terra, como você pode ver no forte documentário abaixo com legendas em português. Impossível assistir e não se chocar em algumas partes. Mas é um documentário essencial para dar uma noção mínima do estrago que uma guerra civil é capaz de causar.

Futuro

Confesso que não foi fácil revirar o passado da Libéria para escrever aqui no Viagem’Grafia 2 – comecei a duvidar que fosse encontrar ao menos UMA coisa boa sobre o país. Mas depois de mergulhar em tantas histórias tristes, percebi que o país hoje caminha para frente e tem perspectivas que antes não existiam.

Menino em Monróvia / Foto: . Licença: CC BY.
Menino em Monróvia / Foto: UNMEER. Licença: CC BY.

Fiquei feliz de ler sobre duas mulheres liberianas (Leymah Gbowee e Ellen Sirleaf) que ganharam o prêmio Nobel da paz, pelos esforços para acabar com as guerras civis – Ellen Sirleaf é a atual presidente do país.

O vídeo abaixo, totalmente diferente do vídeo anterior e com cenas impossíveis de se imaginar há 15 anos, é uma prova de que aos poucos as coisas estão entrando nos eixos por lá – mesmo que ainda existam sequelas pelo ar. O vídeo mostra pessoas levando uma vida normal, celebrando o fato da Libéria ter ficado livre do Ebola.

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