Confiando em desconhecidos

Antes de compartilhar uma história que aconteceu comigo há alguns anos, gostaria de fazer uma introdução falando sobre algo que tem sido comum notar em muitos lugares e principalmente nas grandes cidades: “Epidemias de desconfiança”

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Foto: Maia Valenzuela

Na linha do “é melhor prevenir do que remediar” estamos ficando habituados a ver ou usar a desconfiança como escudo para nos proteger desse mundo pintado como assustador. É o medo de ser enganado, de se machucar, de perder, de ser prejudicado e por aí vai …

Não há nada de errado em ter medo. A gente precisa desse freio instintivo de vez em quando. O que a gente tem que tomar cuidado é com a ideia de que tudo e todos são uma ameaça. Porque quando tudo nos parece perigoso, acabamos nos fechando e vivendo só para proteger a vida. 

Mas o que isso tem a ver com viagem? Aqui vai a história …

Prova de confiança

Entre os vendedores de brinquedos, azeitonas, tapetes e rádios de pilha, eu andava por um barulhento mercado de rua em Istambul procurando uma lâmina de barbear. 

Até que no meio daquele formigueiro humano, encontrei um senhor vendendo justamente o que eu procurava.  Sem gritar, vestido em farrapos e encostado sozinho na parede de um canto escondido, ele segurava uma espécie de tronco de árvore com várias coisas penduradas nos “galhos” – entre elas uma caixinha com as lâminas. 

Fui até ele, perguntei o preço e tive uma resposta que não se parecia com nenhum dos números turcos que eu tinha decorado. Perguntei de novo e dessa vez, além de ter respondido a mesma coisa, o vendedor também esticou o braço na minha direção com a palma da mão virada para cima.  

A cena se repetiu mais algumas vezes. E quando já estava desistindo da compra, percebi algo que me fez sentir vergonha.

Esticando o braço, ele estava pedindo para eu colocar o tal produto na mão dele. E só então, poderia me informar o preço … já que ele era cego.

Encontrei uma caixinha no meio daquela multidão e não enxerguei uma pessoa que estava na minha frente. Sem saber onde botar a cara, coloquei a caixinha na mão dele e depois de tocá-la, o vendedor abriu uma sacolinha plástica, dizendo: 5 liras.

Entendi que devia colocar o dinheiro dentro da sacolinha. Mas assim que coloquei a única nota que tinha na carteira (10 liras), o vendedor me mostrou uma outra sacola com algumas moedas e notas.

Quando percebi que aquela era a sacola para pegar meu troco, comecei a me perguntar:

Será que ele é cego mesmo? Será que ele enxerga um pouco? Será que tem alguém com ele? Como ele sabe que eu preciso de troco se nem mesmo tocou na nota?

Depois de olhar bem para os olhos daquele vendedor eu percebi que a resposta era bem simples:

Ele não sabia e nem tinha como saber qual nota eu dei. 

E a vergonha voltou quando percebi que duvidava de alguém que estava me dando uma aula prática do significado de confiança. E sem coragem e vontade de pegar o troco, só agradeci e fui embora com o primeiro grande tapa na cara que levei numa viagem.”

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Foto: Viagem’Grafia (Vinicyus Vieira)

A única opção 

Por mais que a gente faça planejamentos e seja independente, toda grande viagem nos força a depositar confiança em desconhecidos. E como no caso do vendedor cego, confiar muitas vezes é a única opção.

O cotidiano frenético de várias cidades acabam empurrando goela abaixo a ideia do CADA UM POR SÍ ou do SALVE-SE QUEM PUDER. Mas o mundo, definitivamente, não é uma arena de combate. Pode ter arenas, mas não é uma arena e nem deve ser.

As experiências que nos forçam a confiar em desconhecidos, como acontece nas viagens, por exemplo, nos ajudam a desenvolver o discernimento para dosar melhor nossas desconfianças em vez de atirá-las para todos os lados.

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