Uma sociedade com 5 gêneros na Indonésia

Paisagens bonitas, descanso e conforto não fazem mal a ninguém, mas uma das coisas mais interessantes que podem acontecer numa viagem é, curiosamente, o que muitos tentam evitar a todo custo: Choque Cultural.

A intensidade desse choque varia de acordo a visão de mundo e a flexibilidade de cada um. Geralmente, quanto mais aberta for a mente, mais leve é o tapa na cara.

E confusão é o que acontece na cabeça da maioria das pessoas ao saber que existe um lugar no mundo com uma cultura que não se divide em apenas em 2 gêneros (masculino e feminino), mas em 5 gêneros!

Esse post é para falar um pouco da etnia dos Bugis, no sul da ilha de Sulawesi, na Indonésia. Mas antes de ler quais são os outros 3 gêneros, tenha em mente que os Bugis já existem como sociedade há séculos e juntos são cerca de 5 milhões de pessoas – mais do que 3 vezes a população de Porto Alegre. É bastante gente!

Indonésia em azul com a ilha de Sulawesi em destaque / Fonte: www.amcharts.com
Indonésia em azul com a ilha de Sulawesi em destaque / Fonte: amcharts

Os Bugis se dividem nos seguintes gêneros: Makkunrai (feminino), Oroané (masculino), Calabai, Calalai e Bissu.

Mas como são esses outros 3 gêneros?

CALABAI

Calabais possuem a anatomia masculina mas realizam papéis, que em Sulawesi, pertencem ao universo feminino – inclusive vestindo-se com roupas feitas para o gênero feminino.  Muitos brasileiros diriam, com toda certeza, que um calabai, nada mais é do que uma pessoa homossexual, certo?

Mas a verdade é que mesmo que alguns calabais sejam realmente homossexuais, também existem calabais heterossexuais e calabais bissexuais … e é aí que a cabeça de muita gente começa a dar nó.

Nossa cultura ainda confunde sexo (macho/fêmea) com gênero – que é algo definido pela sociedade. E é importante lembrar que nem sexo e nem gênero definem a orientação sexual de alguém.

Sul de Sulawesi, Praias Gêmeas / Foto de Fabio Achilli. Licença CC BY.
Sul de Sulawesi, Praias Gêmeas / Foto de Fabio Achilli. Licença CC BY.

CALALAI

Calalais são o inverso dos Calabais. Possuem a anatomia feminina mas realizam papéis, que em Sulawesi, pertencem ao universo masculino – inclusive vestindo-se com roupas feitas para o gênero masculino. E, novamente, como gênero não define a orientação sexual, Calalais podem ser heterossexuais, homossexuais ou bissexuais. Vai de cada um.

O curioso é que pela semelhança a gente fica inclinado a rotular Calabais e Calalais como transexuais. Só que rotular uma outra cultura com uma etiqueta própria, sempre acaba sendo injusto com quem é rotulado. Então, nada de comparações. Calabais são calabais e calalais são calalais.

Mas depois de conhecer quatro gêneros, fica difícil imaginar o quinto e último gênero da sociedade dos Bugis, não?

BISSU

Uma pessoa pode nascer Bissu (intersexual) ou tornar-se Bissu depois de passar por uma difícil prova (Irebba) que, entre outras coisas, pode deixar o candidato até 40 dias em jejum. Não é para qualquer um.

Bissu é considerado o gênero completo  porque além de ter os gêneros feminino e masculino (ao mesmo tempo), também é considerado o gênero intermediário na comunicação entre o mundo dos vivos e o mundo dos deuses e antepassados. Bissus têm status de divindades.

Bissus em ritual religioso / Foto de Mohammad Ridwan. Licença CC BY
Bissus em ritual religioso / Foto de Mohammad Ridwan. Licença CC BY

Para ficar mais fácil de entender a relação entre os 5 gêneros, imagine que a sociedade dos Bugis seja uma mesa, onde o tampo representa os Bissus e as quatro pernas seriam os outros 4 gêneros – que formam a base da sociedade.

Os Bugis acreditam que para existir harmonia e equilíbrio no mundo, os 5 gêneros precisam existir e coexistir.

No resumo da ópera, talvez seja mais correto dizer que os Bugis não se dividem, mas que se unem em 5 gêneros. E em tempos que vemos no Brasil discussões tão acaloradas (que muitas vezes só enxergam preto ou branco) na tentativa de estabelecer modelos de sociedade, acho que é válido olhar para o lado e reparar que existem estruturas de mundo diferentes e que funcionam.

Viajar, ver e entender outras culturas e estruturas de sociedade, causa mesmo um choque … mas a gente sempre acorda um pouco depois de levar um choque, não?

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