Três características brasileiras que constatei viajando de um jeito diferente

Os choques culturais em uma viagem são uma ótima oportunidade para enxergar melhor uma cultura, inclusive a nossa. Mas como a gente faz para conseguir enxergar bem nossa própria cultura?

Ninguém enxerga bem um quadro se estiver a muitos metros de distância dele e nem se estiver com o nariz grudado na tela. Por isso, Blaise Pascal dizia que se quisermos enxergar algo com clareza (e eu incluo culturas nesse pacote) precisamos encontrar essa distância que não nos deixa nem próximos, nem afastados demais.

Mas cravar comentários sobre a cultura de um lugar exige muito cuidado. Porque existem comportamentos que são culturais, mas também existem comportamentos globais e que são resultados das virtudes e dos defeitos humanos. E nem sempre é fácil separar o que é cultural do que é individual.

Por saber que é um assunto delicado, sempre pisei em ovos para dar qualquer tipo de definição sobre “comportamentos brasileiros” – mesmo depois de ter experimentado a proximidade (morando aqui grande parte da vida) e o afastamento (morando fora) . Até viver uma experiência que me deixou numa distância interessante para constatar 3 características muito fortes da nossa cultura.

Mas antes de falar das 3 características, gostaria de ilustrar rapidinho que experiência foi essa.

Imagine que TODAS as pessoas da sua cidade fossem substituídas, do dia para a noite, por pessoas de uma outra nacionalidade e somente você continuasse na cidade para viver com os novos habitantes.

Globo terrestre em mosaico
Mosaico cultural. Imagem: Wikimedia

Era mais ou menos essa a sensação que vivia quando os navios de cruzeiros onde trabalhei (e morei) mudavam o itinerário para o início de uma nova temporada em uma nova região do mundo.

De um dia para o outro, tudo mudava a bordo e era preciso se adaptar rápido ao estilo e às demandas da nova nacionalidade que embarcava em massa. Mas era sempre incrível ver, exatamente, onde estavam as diferenças de comportamento entre grupos de diferentes nacionalidades.

E agora sim, vou compartilhar o que pude constatar do jeitão brasileiro quando os navios vinham para o Brasil.

 

1- NÃO’s

Símbolo de proibição

Nós brasileiros temos uma estranha dificuldade em dizer “não’s”.

Muitas vezes associamos um “não” como algo pouco educado de dizer, principalmente se não estiver acompanhado de alguma justificativa. O resultado disso, é que nos acostumamos a dar voltas em nossos discursos, só para evitar um “não” direto que possa soar grosseiro. O problema é que muitas vezes isso vira enrolação e falta de franqueza.

Mas nossa dificuldade também aparece na hora de ouvir “não’s”.

No navio, era muito estranho ver como passageiros brasileiros se sentiam extremamente ofendidos por qualquer “não” mais direto que recebiam.

Por ser brasileiro, eu sabia que precisava de mais tato e delicadeza quando realmente precisava dizer um “não” para uma solicitação de um passageiro brasileiro, mas meus colegas de trabalho (gringos) que respondiam com um “não seco”, eram sempre vistos como grosseiros e mal-educados.

Essas queixas de passageiros que se sentiam maltratados eram tão frequentes na temporada brasileira, que o tema de como dizer “não à brasileira” era sempre discutido nas reuniões de trabalho quando o navio estava para chegar ao Brasil. Sempre fazíamos uma espécie de “preparação cultural” para se adaptar ao estilo do lugar que estávamos entrando e no Brasil a pauta era sempre como aprender a “perfumar os não’s” para evitar dores de cabeça.

 

2- (IN)DISCIPLINA

Talvez não exista hora melhor para observar como as pessoas realmente são do que o momento em que elas se sentem livres – que é geralmente o que acontece quando estão de férias.

Mas essa coisa de fazer as coisas do jeito que bem entende e na hora que quer é muito forte no brasileiro. E a bordo, deu para constatar, o que não é lá um grande segredo para muita gente: disciplina não é algo que os brasileiros adoram.

Pessoa pisando na grama
Foto: Michelle Gomes. Licença CC BY

Alguns povos giram a vida toda em torno de regras. O que pode até deixar a vida planejada demais, meio quadrada e previsível em muitos casos. E a vida não é um relógio e nem tem manual, né? Acho que não é para tanto. Mas no caso dos brasileiros, tudo parece girar em torno das vontades do momento. É o outro extremo. E aí tudo vira um show de improvisos e imprevistos.

Somos especialistas em jogo de cintura, porque temos que lidar com imprevistos o tempo todo. Por isso essa nossa grande flexibilidade. Crescer num cenário onde tudo pode acontecer, ensina qualquer um a ter jogo de cintura.

Uma colega italiana me dizia que o Brasil lhe deixava confusa porque para ela TUDO em nosso país parecia ser uma exceção e não seguir padrão algum. E olha que a Itália também não é esse espetáculo de obediência às regras.

Falar com milhares de brasileiros a bordo me fez ver como essa “liberdade” das férias potencializa o bicho-sem-regras em cada um de nós.

 

3- INFORMALIDADE 

Mas se a gente enrola e faz cerimônias para dizer um simples “não”, de resto parece que não fazemos cerimônia para mais nada. O Brasil parece ser o reino da informalidade e parte disso vem por causa da nossa resistência em obedecer regras, seguir protocolos e todos os outros frutos da indisciplina.

E se por um lado essa informalidade brasileira tem um poder de encantar gringos e quebrar o gelo, por outro lado, muitas vezes essa espontaneidade toda, que vem da informalidade, assusta pra valer quem não está acostumado com a nossa cultura.

Lembra do Cafú quebrando o protocolo e levantando a taça em cima de um suporte?

Esse grau de informalidade é muito nosso e ver passageiros brasileiros circulando de sunga no hall central dos navios, por exemplo, era bem frequente. E isso não acontecia com outras nacionalidades. Não no hall central.

Hall elegante de hotel com luzes, escadas e pessoas
Hall central de um cruzeiro (Foto: Wikimedia)

Muitos de nós brasileiros as vezes agimos como se não estivéssemos nem aí para o mundo a nossa volta. Essa espontaneidade muitas vezes pode até ser engraçada, mas é importante estar atento para essa linha fina que separa a espontaneidade da deselegância.

 ***

Mas mesmo que essas 3 características combinadas expliquem muitas coisas da nossa cultura, todos os povos têm suas esquisitices e qualidades e todos têm algo a aprender e a ensinar aos demais.

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