Breve história num campo de refugiados

Antes de começar, um curto resumo dos dois termos.

Imigrante: pessoa que muda de país em busca de novas oportunidades.

Refugiado: pessoa que deixa seu país para escapar da morte.

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Foram dois dias de visita ao campo de refugiados numa das extremidades do porto de Piraeus, apenas 12km a sudoeste de Atenas. Lá, cerca de 3.000 refugiados, na maioria sírios, iraquianos e afegãos, vivem, não se sabe até quando, em barracas sobre o asfalto.

Os dois dias tiveram atmosferas bem diferentes, por isso vou separar essa história em duas partes

(todas as fotos foram tiradas no segundo dia)

1º dia 

Melancia

Dentro de uma caminhonete velha, um senhor cortava um pedaço de melancia para um menino que esperava do lado de fora. Na ponta dos pés e com o peito encostado na porta, o menino era a primeira criança de uma fila tão grande que fazia aquela melancia ficar pequena.

Assim que o menino recebeu seu pedaço, saiu correndo feliz e sumiu entre as centenas de barracas do acampamento. E a cena se repetiu com a segunda criança, a terceira, a quarta, a quinta …

Esse cenário foi a forma como o campo de refugiados escolheu se apresentar para mim.

Mas embora aquele espaço todo parecesse estar tomado por brincadeiras de crianças, na frente de quase todas as barracas havia um adulto, com muitos deles olhando para o nada e com a cabeça longe.

Ser adulto ali parecia ser mais difícil.

Memórias cheias e coragem

Tente imaginar o que seria abandonar às pressas sua casa, seu trabalho, sua cidade e seu país para não morrer. Saindo de casa a pé, carregando tudo que pudesse aguentar nos braços e nas costas.

O que você carregaria com você? O que deixaria para trás?

Mas carregar coisas nos braços e nas costas é o de menos. Mais difícil é lidar com uma cabeça abarrotada de perguntas, traumas, saudades e outros tipos de freio. E assim estavam muitos daqueles adultos. Parados, olhando para o nada, mas com a cabeça a mil. Um turbilhão de ideias misturado com um cansaço mental tão grande que fazia a minha presença nem ser notada, mesmo passando ao lado de muitos deles.

Era de cortar o coração.

E se aquele tédio fazia com que eles sentissem a saudade de outros tempos apertar, por outro lado, também existia a clara sensação de que o pior já tinha passado. Estar ali também era um alívio depois de terem conseguido escapar com vida da guerra e da travessia do mar Mediterrâneo em embarcações precárias. Depois de tudo que viram e passaram, nenhum deles olhava o futuro com medo e mesmo que as incertezas sobre o que iria acontecer fossem muitas, de uma coisa eles não tinham dúvida: não morreriam naquela guerra.

Voluntários

E aos poucos, comecei a notar que nem tudo ali era tristeza. Um grupo enorme de voluntários (ONG’s, donos e funcionários de restaurantes), uma rede de supermercados e até mesmo o clube de futebol da cidade, o Olympiakos, davam um suporte gigantesco a todas aquelas pessoas.

Voluntários entregavam lanches, mediam a pressão, separavam roupas doadas por tamanho, faziam de tudo. Então, contagiado por ver tanta gente colocando a mão na massa e não indo apenas lá para olhar, perguntei a uma das voluntárias como eu poderia ajudar. E ela me respondeu:

– Traga giz, se você puder.

A minha ideia de levar uma bola para a criançada não era mesmo muito boa. Haviam coisas mais urgentes para serem pensadas –  sem falar que uma única bola para tantas crianças poderia gerar mais confusão do que alegrias.

Mas giz?  Não imaginava que até mesmo uma escola tivesse sido improvisada por lá.

Fui embora atrás de giz.

2º dia

Giz

Contando sobre minha visita ao campo para alguns amigos, todos ofereceram dinheiro para que eu comprasse a maior quantidade possível de giz. E não deu outra, com aquela grana toda, levei todas as caixinhas de giz da única papelaria aberta na cidade naquele domingo.

Quando voltei ao campo, uma surpresa. Não havia nenhuma escola improvisada ali. O giz seria para ajudar os adultos a quebrarem o enorme tédio que sentiam naquela longa espera. Usando o chão e um giz, eles finalmente poderiam escrever e serem lidos.

Aquela voluntária merecia um Oscar por ter tido essa ideia.

E não sei se meu jeito de olhar as coisas estava diferente, mas o ambiente parecia estar mais leve do que no primeiro dia. Eu já sabia andar por ali, reconheci pessoas que encontrei no dia anterior e isso já era um passo a mais para que os cumprimentos fossem um pouco mais expressivos.

E embora não me esqueça de nenhum dos sírios, afegãos e iraquianos com quem conversei, essas 3 pessoas da foto merecem ter a história contada aqui.

Da esquerda para a direita: O pai, a filha e o amigo do pai.

O jogo

Enquanto andava por uma estrada na lateral do campo, comecei a escutar os gritos de uma menina. E de longe, vi que estava rolando uma partida de frescobol.

Fui até lá e quando os três me viram, deram uma pausa no jogo, me cumprimentaram e pediram para que eu ficasse à vontade para assistir à partida e tirasse fotos se quisesse. Que legal! Eles não ligavam de serem fotografados! Finalmente consegui tirar a câmera da mochila sem me sentir mal por fotografar ali. Afinal, aquelas pessoas não estavam lá como puras atrações a serem fotografadas, né?

E a partida voltou junto com os gritos da menina que torcia loucamente para o pai. O engraçado é que não existe vencedor ou perdedor numa partida de frescobol. Mas a menina não estava nem aí para regras. Ela estava torcendo para o pai e ponto. Ele parecia ser o herói dela.

E quando a bolinha foi parar longe, o “adversário do pai” correu para dentro de uma barraca e trouxe de lá uma bandeja com quatro maçãs para que eu comesse ali ou para levar comigo se quisesse.

Eu congelei.

Eles estavam me oferecendo a comida que tinham. Claro que não aceitei, mas resolveram deixar a bandeja do meu lado caso eu mudasse de ideia. E o jogo reiniciou, com a mesma torcida vibrante, as mesmas risadas e eu lá … congelado.

E juntando todas as histórias que ouvi ali e depois de ver tanta generosidade e tanta hospitalidade de quem estava até sem um país para ficar, vi que aquela menina tinha razão de idolatrar o pai. Todos ali eram heróis.

 


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