Como a África se tornou negra

Você já percebeu como o continente africano muitas vezes é tratado como se não existissem fronteiras e grandes diferenças dentro dele?

Por que tratar países e regiões tão diferentes do continente na base do “É tudo África!”?

Cerca de um quarto das línguas faladas no mundo está na África e entre os seis principais grupos étnicos da humanidade, apenas os aborígines australianos não têm raízes firmadas no continente – já todos os outros cinco grupos (asiáticos, negros, coissãs, brancos e pigmeus) estão na África há mais de mil anos.

Entre os cinco grupos presentes no continente, não é segredo para ninguém que os negros são maioria. Porém, nem sempre foi assim. A África não nasceu negra, na verdade, os negros conquistaram a África.

Para saber como isso aconteceu, é importante entender melhor algumas características dos outros grupos.

Coissãs

Os coissãs vivem como nômades e hoje estão nas áreas mais áridas ao sul do continente, principalmente pela Namíbia, Botswana e África do Sul. Fisicamente os coissãs têm a pele mais amarelada e o cabelo mais crespo que os negros africanos.

Os Deuses Devem Estar Loucos1
Homem coissã, protagonista do filme  “Os deuses devem estar loucos”

Pigmeus

Os pigmeus são caçadores-coletores nômades que vivem nas florestas tropicais na África central. Assim como os negros, os pigmeus têm cabelos crespos e a pele escura, mas com um tom mais avermelhado. Além disso, os pigmeus geralmente têm olhos saltados e baixa estatura. Em comparação com negros e coissãs, os pigmeus também têm mais pelos no rosto e no corpo.

Pigmeus / Foto: Wikimedia

Asiáticos

Quando os primeiros europeus (portugueses) chegaram em Madagascar em 1500, ficaram surpresos quando perceberam que a ilha também era habitada por asiáticos e que eles já estavam ali há mais de 700 anos.

Madagascar
Bornéu está a cerca de 7 mil quilômetros de  Madagascar e foi o ponto de partida da imigração asiática na África.

Interessante é que observando o povo de Madagascar, é fácil encontrar traços asiáticos no rosto de parte da população. Além disso, o Malgaxe (língua oficial do país) é até hoje muito parecido com a língua Ma’aniana, falada na ilha de Bornéu, na Indonésia.

Presidente de MadagascarPresidente de Madagascar (Hery Rajaonarimampianina) Foto: Chatham House / CC BY

Half asian half black
Menina com traços da miscigenação entre negros e asiáticos em Madagascar

Então como os negros se tornaram maioria na África? 

Por volta do ano  3000 a.C., grupos Bantos (ancestrais dos negros africanos de hoje) começaram a avançar pelo continente à medida que sua população crescia. Os Bantos eram agricultores, criadores de animais, não tinham estilo de vida nômade e tudo isso favoreceu o aumento de sua população e consequentemente o avanço para novas áreas que, até então, eram habitadas por pigmeus ou coissãs.

Africa Mapa
Asterisco indicando a origem dos bantos / atualmente entre Nigéria e Camarões

Pigmeus e coissãs, por serem caçadores com estilo nômade não cresceram na mesma proporção, não tinham territórios firmados e ficaram subjugados aos negros.

Os brancos também eram agricultores e criavam animais, mas ficaram restritos à faixa do continente ao norte do Saara. O deserto e as montanhas próximas ao Mar Vermelho funcionaram como uma espécie de muro, impedindo que os brancos fossem para o sul e que os negros seguissem rumo ao norte.

Os asiáticos embora tenham chegado em Madagascar muito antes dos europeus, chegaram tarde demais para uma grande expansão rumo ao continente que já estava ocupado em sua maioria pelos negros.

Africa BLANK
Laranja: negros (o asterisco indica o ponto inicial da expansão dos Bantos). Vermelho: coissãs. Amarelo: brancos.  Rosa: asiáticos. Verde: Pigmeus (o ponto de interrogação indica que ainda é incerto o formato exato da área ocupada pelos pigmeus)

Conclusão

O intuito deste texto não é de mostrar as diferenças entre os grupos para dizer que um é melhor que outro e nem estereotipar sociedades tão complexas. Afinal, todos os grupos têm subdivisões e foram se misturando à medida que foram se encontrando. 

O objetivo aqui é falar da diversidade da África. Mostrar que não faz sentido falar do continente se não especificarmos qual parte dele estamos olhando.

Nenhum outro continente agrupa tantos grupos étnicos quanto a África.

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Abaixo algumas recomendações de leitura para quem quiser se aprofundar mais no assunto:

  • Christopher Ehret e Merrick Posnansky- The Archaelogical and Linguistic Reconstruction of African History
  • Jared Diamond – Armas, Germes e Aço (Guns, Germs and Steel)
  • Pierre Verin – The History of Civilization in North Madagascar
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